"... nao queria morrer como um animal, queria compreender. Alem disso, tinha medo de ter pesadelos. Levantei-me, andei de um lado para outro e, para afastar aquelas ideias, comecei a pensar no passado. Uma onda de lembrancas surgiu em confusao. Havia-as boas e mas - ou pelo menos eu as considerava assim antes.
Nesse momento tive a impressao de sentir toda a minha vida a minha frente e pensei: 'Eh uma grande mentira.' Nao valia nada, pois havia acabado. Perguntei-me como tinha conseguido passear, divertir-me com mulheres; nao teria mexido um dedo se houvesse imaginado que iria acabar desse jeito. Tinha minha vida diante de mim, fechada como um saco e entretanto tudo quanto estava lah dentro continuava inacabado. Tentei, num momento, julga-la. Quisera dizer - foi uma bela vida. Mas nao se podia fazer um julgamento, pois ela era apenas um esboco; havia passado o tempo todo a fazer castelos para a eternidade, nao compreendera nada. Nao tinha saudades de nada; havia uma porcao de coisas das quais poderia sentir saudades; a morte, porem, roubara o encanto de tudo."
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Incrivel como passei a vida lendo tao pouco, mas lendo sempre, ao meu entender, tudo aquilo, e exatamente aquilo, que precisava a cada momento.
Atribuo isso ao acaso, ou a um grande potencial meu em identificar o que nao existe, aonde nao ha.
E isto servir pra mim, sendo aquilo que necessito.
Esse texto me joga contra mim mesmo, quanto a minha ideia de palimpsesto. Me coloca em cheque. Me questiona e me faz duvidar de mim.
Por isso aprecio.
Palimpsesto eh uma verdade inconstestavel, e uma hipocrisia, igualmente inconstestavel.
Sou minha vida, em cima da minha vida, em cima da minha vida, em cima da minha vida, em cima da minha vida, ateh meus dedos comecarem a teclar errado.
Fica por baixo, mas fica lah. Pra sempre.
Essa eh a parte da verdade.
Porem, nao posso lembrar disso. Nao de tudo, nao todo o tempo.
Pois preciso matar coisas. Matar pedacos de vida. Matar acontecimentos. Matar vivencias. Matar sentimentos. Matar pessoas.
Pois se a tinta de baixo for vivida demais, nao tenho forca pra colorir nova camada.
A morte, eh a conlusao da vida vivida. Eh soh o epilogo. Nao rouba o encanto acumulado.
Mas a morte do texto de cima, eh outra.
Trata-se da vida tomada, roubada. Um furto do sentido de tudo. De supetao.
Essa eh a morte vivida! Inumeras vezes, repetidas vezes.
E essa eh a minha hipocrisia enquanto palimpsesto.
Apesar de, pra mim, ser apenas a outra verdade.
Quando a vida se esvai, e vai, antes de mim, me resta matar o que sobra.
Pra entao algo novo nascer. Me dando nova vida, e novo sentido.
Nesse meio tempo, me resta regar um buraco no meio do peito.
Onde mais uma flor vai nascer, e mais uma vez vou matar.
Talvez a morte - a definitiva - seja reflexo do cansaco, de tanto matar, pra pouco viver.
Ou, um dia, pode ser que eu simplesmente desista de matar. E me expanda. Construindo, em vez de um palimpsesto, todo um muro colorido.